O que é o funk?

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O que é, afinal, o funk? Poucas pessoas poderão estar tão habilitadas para responder como as que se encontram por trás da verdadeira bíblia que é o «Funky & Groovy Music records Lexicon». A base desta operação é o site The Black Hole Of Funky Music, designação apropriada para um site que é não apenas uma entrada para uma dimensão paralela, mas um verdadeiro sorvedouro de energia. Para os estudiosos da causa funk, a entrada What’s Funky Music? é de leitura absolutamente obrigatória. Mais informação do que a que é humanamente digerível num só dia! E desculpa mais do que perfeita para recuperar um velho texto do tempo em que o Blitz ainda era um jornal semanário.

 

Smells like funk spirit

 

O Funk nasceu como um grito, filho de uma liberdade conquistada nos anos 60 pelos negros americanos. Quatro décadas depois, os enunciados de James Brown continuam tão actuais como antes.

 

 

 

O Funk nasceu em meados dos anos 60, quando James Brown, algures entre “Papa’s Got a Brand New Bag” e “Cold Sweat”, percebeu que a herança pesada do R&B e o contexto contemporâneo da Soul já não acompanhavam o ritmo primal que cozinhava a cada nova sessão, com uma banda que incluía veteranos de jazz, jovens bateristas e uma série de outros músicos profissionais de múltiplas proveniências. Apesar dos inúmeros discos que editou neste período (com muitos a surgirem no mercado sem a sua autorização), era ao vivo que Brown melhor conduzia os destinos da sua música e foi em palco que o seu som começou a mudar. E tempos agitados como aqueles – com o Civil Rights Movement ao rubro e todas as erupções de liberdade que a conservadora sociedade norte-americana relutantemente tentava encaixar – reclamavam uma música mais frenética, liberta do lado mais espiritual da Soul e ainda mais avassaladora do que o primitivo R&B. O Funk, pode-se dizê-lo, limitou-se a traduzir o pulsar de uma época. Paradoxal é o facto de, para um género tão agarrado a um tempo e a uma geografia específica, as malhas do Funk continuarem a entrelaçar-se hoje como parte de uma agitada cena que parece não distinguir entre pioneiros e novos praticantes, assumindo-se este estilo como um corpo vivo que ainda tem muito para dar.

 

Funk & Hip Hop

 

“Não sei explicar muito bem porquê,” adiantou, em entrevista ao Blitz, Keb Darge, “mas há algo no Funk que transcende épocas, línguas e até raças. Quando eu coloco ‘Who’s The King’ de Joseph Henry as pistas explodem, quer eu esteja a pôr música em Londres ou em Tóquio, em Xangai ou em Hong Kong, em Sidney ou em Bruxelas.” Darge é por muitos apontado como um dos principais responsáveis pelo renascimento em força do Funk. DJ veterano cujas raízes se estendem até à movimentada cena da Northern Soul, Keb Darge compilou variados discos para a editora Barely Breaking Even nos últimos anos. Séries como a “Legendary Deep Funk” ou “Funk Spectrum” e noites como a Deep Funk no Madame Jo-Jo’s, em Londres, elevaram Darge até aos píncaros do panorama Nu-Funk, transformando instantaneamente cada novo disco usado nos seus sets no título mais desejado por um verdadeiro exército de coleccionadores espalhados por todo o mundo. Keb Darge prepara-se para editar agora um novo álbum na BBE, parte de uma série que atravessará vários estilos (Kings of Disco e Kings of Soul já estão na forja). Obviamente, Darge assina o primeiro volume de “Kings of Funk”, dividindo a tarefa com Rza, o visionário produtor dos Wu-Tang Clan. Já no passado, na série “Funk Spectrum”, Darge repartiu a responsabilidade de “desenterrar” pérolas esquecidas do legado do Funk com gente como Pete Rock ou DJ Shadow. É que as ligações entre a história do Funk e o Hip Hop – por via do sampling – são profundas. Keb Darge, no entanto, prefere ver essas parcerias como mera opção estratégica da editora, referindo que de todos os nomes do Hip Hop com que trabalhou “só o Josh, ou DJ Shadow como é conhecido, é que é um verdadeiro conhecedor. Apesar de ser muito novo,” prossegue Keb, “o Josh possui um enorme respeito pela história do Funk e conhece realmente as raízes do género. Há dealers americanos com que eu lido que já há 20 anos que vendem discos ao Josh. Para os outros produtores, o Funk é apenas uma fonte de breaks. Basta ver a selecção do Rza…”

De facto, Keb Darge levanta uma questão pertinente. O Funk foi um dos principais combustíveis do lado musical do Hip Hop, tendo sido samplado até à exaustão. Em parte por naturais razões culturais (os primeiros produtores – quase todos negros – começaram por samplar os discos que tinham à mão, abordando as colecções dos pais), e, por outro lado, por óbvias questões tradicionais (afinal foi por cima de breaks de Funk que os primeiros MCs testaram as suas rimas). Nesta época de deslumbramento “samplista” e com os velhos códigos de direitos de autor inadequados a esta prática, a obra de um pioneiro como James Brown foi tomada de assalto – o MC Edan, que se prepara para lançar novo álbum de título “Beauty and The Beat”, editou recentemente uma compilação de temas de Hip Hop circa 1988 cuja particularidade uniformizadora residia no facto de todos samplarem “Funky Drummer” de James Brown… Por isso mesmo, e como forma de reclamar os royalties que lhe eram devidos, o padrinho da Soul editou em 88 o álbum “I’m Real”, onde se insurgia contra a possibilidade de poder passar a ter uma existência virtual através do sampling. Na verdade, o Hip Hop manteve-o vivo e até se organizou em campanha para o libertar quando foi encarcerado por ter disparado contra a mulher.

È portanto inegável que o Hip Hop fez muito pela manutenção da vitalidade e da validade do Funk. O sampling, para muitos, funcionou como o instigador de uma curiosidade que manteve o mercado das reedições bem vivo, com novas compilações a surgirem nos escaparates com cada vez maior frequência. Editoras como a Harmless, a Soul Jazz, a Now Again ou a Luv’n’Haight não se aventurariam nestes terrenos se não houvesse um público ávido de conhecer as raízes de um género que se habituou a ouvir filtrado em composições de Hip Hop. O que levou a um efeito curioso. Se é verdade que, musicalmente falando, a primeira geração do Hip Hop foi educada com uma rigorosa dieta de Funk, não será menos verdade que a nova geração do Funk cresceu embalada pelas batidas sampladas do Hip Hop. Veja-se o caso da Breakestra, que editou um álbum e variadíssimos singles na Stones Throw: trata-se de uma orquestra formada por um guitarrista que é igualmente produtor de Hip Hop (Miles Tackett aka This Kid Named Miles) com o único propósito de tocar breaks – aqueles pedaços dos discos de Funk eleitos pelos produtores dos discos de Rap para sustentarem os discursos dos MCs.

 

Funk 45s

 

A nova geração do Funk – de onde está a emergir a diva Sharon Jones, cujo novo álbum é apontado por Keb Darge como o primeiro disco gerado pelo movimento Nu-Funk capaz de escalar os Tops de Vendas mundiais – apoiou-se em editoras como a Daptone e a Soul Fire nascidas originalmente para reeditarem obscuros singles de sete polegadas tornados famosos pelo sampling dentro do Hip Hop. Aliás, o momento mais visível do fenómeno de coleccionismo dos chamados Funk 45s – que em sites como o Ebay chegam a atingir os milhares de dólares em disputadíssimos leilões – seguiu-se à edição de “Brainfreeze”, um CD de edição limitada assinado por DJ Shadow e Cut Chemist dos Jurassic 5 que documentava um set em que os dois giradisquistas cruzaram exclusivamente raridades de Funk em sete polegadas. Esse álbum despoletou uma corrida frenética às poucas cópias que restavam de cada um dos singles que Shadow e Chemist haviam usado naquele irrepetível set e os círculos de coleccionadores de Funk 45s, apoiados em fóruns de discussão online, agitaram-se até à beira da histeria.

É preciso entender que o fenómeno despoletado por James Brown na segunda metade dos anos 60 teve um impacto que se estendeu muito para lá da música. Brown, por muitos apontado como “The Hardest Working Man on Show Business”, não era apenas um arranjador de excepção e um espantoso catalizador de energias, tendo-se  afirmado igualmente como um astuto homem de negócios e porta-voz de uma geração que assistiu a uma profunda mudança na sociedade americana. Gritos de revolta como “Say it loud, i’m black and i’m proud” transformaram James Brown num fenómeno espantoso que todos os jovens americanos, principalmente os que queriam ter uma participação activa na revolução de costumes então em curso, queriam imitar. Por isso mesmo, a América profunda assistiu ao nascimento de uma banda de Funk em cada esquina com o som sincopado de James Brown bem dominado e tendo todas uma única ideia na cabeça: vencer pela música as apertadas fronteiras da sua realidade local. Assim, centenas de pequenos selos foram aparecendo, especializando-se na edição de obscuros grupos de Funk cujos sonhos eram quase sempre desfeitos quando o único single que gravavam se revelava incapaz de impressionar mais do que meia dúzia de amigos e um ou outro disc-jockey de uma qualquer estação local. Estes singles acabaram por ser esquecidos pelo tempo, adormecidos em armazéns e caves poeirentas de pequenas cidades do Texas ou do Midwest americano até que o fenómeno do Diggin’, nascido da vontade de produtores e Dj’s de Hip Hop encontrarem a batida perfeita, os começou a revelar ao mundo.

 

O som do funk

 

O diggin’ existe de facto desde que os primeiros DJ’s começaram a construir a sua reputação em cima das batidas que usavam para animar as festas embrionárias do Bronx. Na época dourada de gigantes como Kool Herc e Afrika Bambaataa, mais do que a técnica premiava-se o conteúdo e o melhor DJ era o que possuía os melhores discos. Com o surgimento dos primeiros samplers acessíveis ao comum dos mortais, em finais da década de 80, o diggin’ explodiu inequivocamente, levando a que milhares de pessoas procurassem reconstruir os passos musicais dos seus grupos de Hip Hop favoritos adquirindo os discos usados por eles nas suas composições. Nesta época, pessoas como Soulman e Cosmo Baker – nas páginas, respectivamente, da “Rap Pages” e “On The Go” – começaram a escrever sob o fenómeno Diggin’ in the Crates, chamando a atenção para inúmeras rodelas de vinil perdidas nas malhas do tempo. E o fenómeno foi crescendo durante toda a década de 90, dando origem a editoras como a Daptone, Soul Fire, Funk 45 ou Jazzman que depressa perceberam que podiam alargar o seu raio de acção se não se limitassem a reeditar os discos mais raros que os seus timoneiros iam descobrindo no terreno. E depois dos esforços pioneiros dos Poets of Rhythm e Breakestra, uma nova geração começou a impor-se: grupos como os Soul Destroyers, New Mastersounds, Speedometer, Dap Kings, The Mighty Imperials, Sugarman Three ou até os Antibalas recuperaram para o presente a ética e a energia primordial do Funk depois de alguns deles terem até estado envolvidos em pequenos exercícios de “fake vintage Funk” (os Antibalas, por exemplo, foram o grupo responsável pelo álbum dos “nigerianos” Daktaris na pioneira Desco, a editora que depois deu origem à Soul Fire e à Daptone quando os sócios Philip Lehman e Gabriel Roth seguiram caminhos diferentes).

A imposição do som Nu-Funk fez-se de uma estratégia envolta num rigoroso fundamentalismo tecnológico: os discos destes novos grupos são quase sempre gravados em suportes analógicos, recorrendo-se tanto quanto possível a máquinas semelhantes às que foram usadas nos estúdios originais que viram nascer o Funk e que garantiam o carácter cru dessa música. Keb Darge, uma vez mais, revela que grande parte da magia dos velhos discos de Funk residia no seu carácter profundamente humano: “muitas daquelas bandas gravavam com orçamentos baixíssimos ou mesmo com nenhum orçamento em estúdios de dimensão microscópica com tecnologia obsoleta até mesmo para a época. O facto desses discos terem incorporado pequenos erros de produção e até de execução fez deles peças únicas e irrepetíveis com música extremamente humana. O novo Funk vai pela mesma via, recusando o caminho digital que toda a gente parece seguir. Nesse aspecto o Gabriel Roth é um génio que eu coloco ao mesmo nível do James Brown.”

 

Passado, presente e futuro

 

Como se poderá compreender, avaliar o profundo impacto do Funk de forma realista só seria possível se tivéssemos à nossa disposição o espaço normalmente reservado a uma enciclopédia. Ainda assim, é possível afirmar-se que a descendência directa de James Brown – dos Kool & The Gang aos Black Heat, dos Mandrill a Sly Stone ou ainda dos Meters aos Funk, Inc. e dos Parliament/Funkadelic aos inúmeros derivados da escola de George Clinton e Bootsy Collins – cozinhou um som revolucionário cujas ramificações ainda hoje se fazem sentir de forma intensa em variadíssimas correntes da música mais comprometida com o groove. O Funk começou por firmar os pés numa atitude mais primal, onde as descargas de energia através da repetição de diversos argumentos rítmicos (não só a bateria e o baixo, mas igualmente as guitarras, as teclas e a secção de metais) funcionavam como um bloco de peso cujo singular objectivo era o esmagamento pelo groove. Durante a década de 70, múltiplas transformações ocorreram. A visão orquestral da Soul de Marvin Gaye, por exemplo, inspirou Isaac Hayes e as suas sinfonias para detectives privados que tanto eco encontraram nos ecrãs de cinema. Por outro lado, a célula Funk a operar sob a batuta de Vince Montana a partir de Filadélfia procurava injectar sofisticação nesse groove primal dando origem a um som com maior dinâmica, menos interessado no constante abalo rítmico e mais envolvido com a noção de dramatismo, crescendo e outras formas de gestão de tensão dentro de uma mesma canção. O Disco Sound foi o filho directo destas experiências de laboratório e, por conseguinte, na árvore genealógica de géneros como a House ou o Techno também será possível identificar a paternidade mais ou menos distante do Funk.

Hoje, o Funk vive em estado puro na corrente Nu-Funk e de forma mais ou menos dissimulada dentro das linhas de baixo de muitos dos protagonistas da electrónica ou nos samplers dos produtores de Hip Hop que, com uma espantosa regularidade, vão tomando de assalto os topos das tabelas de vendas. O Funk nunca chegou a desaparecer. Apenas se foi mascarando com as novas roupagens da tecnologia, sabendo existir sob a superfície cromada dos hits dos Neptunes, Fatboy Slim, Metro Area ou LCD Sound System!

 

Keb Darge

 

King of funk

 

 

 

Keb Darge, que regressa às edições na BBE com “Kings of Funk”, compilação em que partilha a responsabilidade do alinhamento com Rza dos Wu-Tang Clan, é unanimente apontado como papa do Funk. Para este escocês, cuja carreira como DJ já vem de longe, o Funk poderá estar mesmo à beira dos lugares cimeiros das tabelas de vendas.

Gostava que começasses por me contar a ideia por trás deste novo álbum de título “Kings of Funk”.

A Barely Breaking Even (BBE) vai lançar uma nova série de compilações com títulos como “Kings of Hip Hop”, “Kings of Disco”, “Kings of Soul” e, claro, “Kings of Funk”. E, como sempre acontece, eu recebi um telefonema a perguntar-me se queria fazer parte desta nova série. Eu respondi que sim, claro. Propuseram-me dividir a escolha do alinhamento deste volume dedicado ao funk com o Rza e eu aceitei porque para mim está sempre tudo bem.

Planeias continuar a trabalhar com convidados ao nível da elaboração dos alinhamentos em volumes futuros?

Claro! O Paul Weller, por exemplo, divide comigo a responsabilidade do alinhamento da compilação “Kings of Soul”. Muita gente não sabe, mas o Paul Weller é um grande coleccionador de Soul e tem uns largos milhares de singles desse género. E para mim, que toco sempre Soul e Funk nos meus sets, é natural estar envolvido numa compilação assim. As pessoas hoje vêem-me como uma espécie de embaixador do Funk em regime de exclusividade, mas para mim as coisas são diferentes. A Soul está na origem da minha actividade como DJ!

“Kings of Funk” é uma compilação bem diferente das anteriores em que te envolveste. Talvez seja mais apelativa para um público mais vasto. Foi um passo natural ou planeado?

Compreendo porque achas que é mais apelativo. Talvez por ter coisas como os MFSB…

… e a Sharon Jones e os Quantic…

… sim. Bem, para mim é simples. Eu não faço nenhum esforço especial para escolher coisas obscuras. Gosto de boa música e encontrar boa música para estas compilações que as pessoas ainda não conheçam às vezes pode implicar ir buscar nomes menos conhecidos. Mas se eu puder ajudar a divulgar música feita agora que possui o mesmo espírito dos anos 60 ou 70, então tanto melhor. Os discos da Sharon Jones e de Quantic caem nesse território: música fantástica feita agora que ainda não possui o reconhecimento devido. E a verdade é que os coleccionadores de Funk não se podem queixar porque nos últimos anos têm saído coisas absolutamente incríveis, como a Sharon Jones, os New Mastersounds.

Várias das pessoas com quem tens trabalhado têm algum tipo de ligação ao universo do Hip Hop – como o Pete Rock, o DJ Shadow ou agora Rza. Sentes que o Hip Hop é o tipo de música que melhor traduz no presente a vibração original do Funk?

Não. O Hip Hop está até um pouco afastado do real universo do Funk. Desses todos, o DJ Shadow é uma excepção. Só o Josh, ou DJ Shadow como é conhecido, é que é um verdadeiro conhecedor. Apesar de ser muito novo, ele possui um enorme respeito pela história do Funk e conhece realmente as raízes do género. Há dealers americanos com que eu lido que já há 20 anos vendem discos ao Josh. Para os outros produtores, o Funk é apenas uma fonte de breaks. Basta ver a selecção do Rza… Conheço imensa gente que se limita a procurar um single raro por causa de quatro segundos de bateria, quando os restantes 3 minutos são absolutamente brilhantes. Confesso que isso me faz alguma confusão.

Porque é que a força do Funk se manteve intacta até hoje?

Porque é boa música. Simplesmente isso. O Funk nasceu como uma forma de traduzir a vibração de uma época e por isso era uma música extremamente honesta, sem artifícios. Essa é a característica que lhe permitiu atravessar as décadas e manter a vitalidade. Hoje em dia, grande parte da música que se escuta nos clubes não vale nada. É feita com um propósito quase artifical, para seguir esta ou aquela nova tendência. Mas o Funk nasceu para traduzir o som das ruas, sem esse tipo de preocupações. E eu acredito que daqui a 200 anos as pessoas ainda vão ouvir James Brown ou Marvin Gaye. Só a grande música tem essa capacidade de resistir ao tempo.

Enquanto coleccionador, o que é que te leva a dizer que este é um single de Funk e aquele é apenas um single com um tema de soul um pouco mais rápido?

Pois é… é muito difícil explicar a diferença. Está tudo na atitude, não há grandes definições. Já me aconteceu passar uma semana inteira num grande armazém americano, ouvir milhares de singles e apenas escolher 5 ou 6 para trazer para casa. Provavelmente, outra pessoa à procura do mesmo que eu traria outros singles. Mas para mim os que eu escolhi eram os que traduziam a pureza do Funk. Essa energia sente-se, mas não se descreve.

A comunidade de coleccionadores de Funk continua agitada?

Pode-se dizer que acalmou um pouco. Mas eu já sei o que vai acontecer com essa comunidade, porque vi os mesmos ciclos de entusiasmo e acalmia acontecerem na cena da Northern Soul. Acho que nos próximos anos essa comunidade vai de novo alargar-se, vão aparecer novos coleccionadores e os preços vão voltar a subir em flecha!

Ainda continuas a embarcar em expedições aos Estados Unidos à procura de discos?

Já não vou tanto aos Estados Unidos porque a Internet e o Ebay mudaram as regras do jogo. Ainda procuro discos, mas em locais como o Japão, um lugar para onde muito do Funk americano começou a ir há muitos anos e onde é possível encontrar coisas fantásticas. Mas o que mais acontece é os dealers ligarem-me a dizerem que encontraram um novo single para mim, tocam-no ao telefone e eu logo decido se me interessa.

Qual foi o preço mais alto que já pagaste por um single de Funk?

Paguei três mil libras (cerca de 4500 euros) por uma cópia do “Save the Youth” dos Mellow Madness. Na comunidade dos coleccionadores de Funk a nível mundial só se conhece outra cópia desse single. Mas digo já que não é saudável andar a pagar esse tipo de dinheiro por Funk 45s. Para mim o que interessa é a música e valorizo da mesma maneira um single de 1000 libras ou um que acabou de sair e que é fantástico e custa apenas 5 libras.

Qual é a tua opinião da nova cena Funk?

Fantástica! Pessoas como o Gabriel Roth têm mantido o espírito do Funk bem vivo. Ele é um produtor de excepção, ao nível do melhor do James Brown e cada novo disco que ele produz é uma bomba, como acontece com o novo da Sharon Jones. Basta ouvir “How do I Let a Good Man Down”. É um tema brilhante que faz todo o sentido nos dias que correm, mas que retém aquele espírito original. Brilhante!

E só para terminar, achas que chegará o dia em que será possível ver Funk de novo no topo das charts?

Claro que sim. Eu tenho tocado um pouco por todo o mundo e a reacção é sempre a mesma. Há sede de Funk, quer em clubes underground de Xangai quer na festa de aniversário da Rainha da Holanda, em que eu toquei. Posso dizer-te que há duas condições que eu acho necessárias para que qualquer tipo de música chegue aos tops: ter promoção de TV e rodar no circuito dos Festivais. A Sharon Jones e eu próprio estamos neste momento a negociar uma digressão por alguns festivais europeus e ela já tem aparecido na televisão. Se calhar, quando as major repararem no que se está a passar e colocarem a sua força de marketing por trás de um grupo de Funk, isto poderá explodir de novo.

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3 Comments

on “O que é o funk?
3 Comments on “O que é o funk?
  1. Não dá para parar o Funk!!

    Esta passagem:
    “E eu acredito que daqui a 200 anos as pessoas ainda vão ouvir James Brown ou Marvin Gaye. Só a grande música tem essa capacidade de resistir ao tempo.”

    :)

  2. O funk é provavelmente a principal fundação de quase toda a música pop contemporânea. Não é a única obviamente, mas é sem dúvida a principal. A herança Funk está em quase tudo.

  3. Prefiro encará-lo como um dos imensos segredares de alma que nasceram nas metrópoles em 70.Não o consigo desajustar de outros de raíz(es) , igualmente negra norte-americana,precedente(s)-como a soul, o r&b, o rock psicadélico e a rythm´n´blues-ou como plataforma de libertação para outros que se seguiram : o acid jazz ou afro beat…O degelar manifesto é aqui expresso no ímpeto dançante como deleite assim como outros(mods/punks ) tinham ,na mesma década,o arrivismo libidinoso ou contestatário como força motriz.

    Não consigo dissociar nada e tenho , cada vez mais ,dificuldade em inteirar de onde partem as heranças ou forças absolutas/puristas(Será que as há mesmo?Ou derivam umas das outras?).

    O prelúdio para este teu blog diz “Todo o funk que há no jazz, todo o rock que há no disco, toda a soul que há na folk, todo o passado que há no futuro” .Não podia estar mais de acordo!Admiro a noção de equilibrio na tua “dieta musical”.Os nutrimentos distintos entre si ,mas todos necessários e complementares para o desenvolvimento geral:)

    PS:E FUNK ? Boa onda.

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