7.2 na Pitchfork. A precisão decimal de Rob Mitchum é divertida. Há pouco, quando uma brisa ousou entrar pela janela que tenho diante da secretária, senti que a faixa 10 merecia pelo menos um 8.6, mas entendo que aquele 7.2 seja o resultado de uma média aritmética. Valorar a música desta maneira, na verdade (e tenho perfeita consciência que, em certa medida, parte da minha subsistência vem precisamente desse exercício), é um esforço inglório. Porque quando se atribui uma nota assim a um disco, sobretudo uma nota tão dramaticamente precisa quanto um 7.2, o que se está realmente a fazer é avaliar a nossa própria experiência melómana e humana e não exactamente o disco que nos invade as colunas ou os auscultadores – este disco vale 7.2 – ou 8.6… – porque antes ouvimos a novidade “x” ou o clássico “y”, porque estamos precisamente a meio caminho da nossa fase krautrock ou imersos na banda sonora de um novo episódio romântico ou porque as férias estão a começar ou porque acabámos de efectuar um pagamento às finanças ou porque William Burroughs ainda se está a rir nas margens da nossa memória ou sabe-se lá por que razão… O que não significa que não se deva coroar a argumentação crítica com notas numa escala de 0 a 10 ou com bolinhas ou estrelinhas ou seja o que for. A meu ver, essas escalas de valorização servem sobretudo para captar a atenção do leitor – «mas porque é que o tipo não gostou tanto do disco como eu? No comboio, quando ia a atravessar a ponte, a mim aquela música soou-me como um 9.9 ou um 20 ou sei lá o quê!» Exactamente. Até porque, já agora…, há discos que podem ser um 7.2 hoje e transformar-se num 8.9 daqui a 20 anos ou vice-versa. Há música à frente do tempo, música no tempo, música atrás do tempo, música sem tempo, música que faz o seu próprio tempo e música que não está nem aí. Um 7.2 não chega. Certamente não chega para os Javelin.
O fenómeno do sampling, que tem uma manifestação muito particular em No Más, começou no hip hop precisamente como um gesto de sublimação de certa música, sobretudo a que carregava marcas de identidade profunda. Nos anos 90, muita da documentação oral que se criou com base no fenómeno do beat diggin’ focava essa questão quando se atribuía a determinados bairros a “descoberta” de um determinado sample ou break – um disco que tinha sido pela primeira vez usado nas block parties do Bronx, outro que só havia em certas lojas de Brooklyn, o som que era mais proeminente na Costa Oeste, ou o Crime Jazz distintamente europeu, as jams latinas, etc, etc. O hip hop começou por samplar o seu próprio adn, a sua própria identidade – as colecções existentes nas casas dos produtores foram por isso mesmo as primeiras a serem filtradas nas SPs e MPCs. Samplar era, essencialmente, homenagear, reclamar um legado.
Mas hoje, os Javelin, como Girl Talk ou os Avalanche antes deles, introduzem uma nova abordagem, já menos importada com as questões da identidade ou do reforço de uma determinada linhagem ou legado, e mais interessada em reenquadrar igualmente uma certa noção de detrito pop, na forma como lida com certos artefactos – cassetes como veículos ideais para masters, caixas de ritmo obsoletas, instrumentos caídos em desuso na idade digital, etc – e com a música que, precisamente, não conquistou lugar nas colecções de ninguém e escapou à rede da memória. O difuso mar sonoro que se centra algures na primeira metade dos anos 80 e que se faz de electro, hip hop, rádio pop, ecos da cacofonia que se desprendia das casas de jogos de arcada, fidelidade própria de Commodores Amiga, cassetes gravadas e regravadas mil vezes, memórias da tv, funk, rock, «Push It», MTV primitiva, rádio AM pública e selecções caseiras para walkman serve de teia de referências para No Más. E isso vale o que cada um lhe quiser atribuir. Para mim – que tenho Bruce Lee, filmes concerto dos Stones, Spielberg, cassetes dos Queen e de Malcolm McLaren, Tron, Flash Gordon, Talking Heads, sapatilhas Stan Smith, t-hirts com um swoosh de curvatura ligeiramente diferente da que hoje lhe dá o CR97 (ou será 79?) ou um XL-1 de Pete Shelley que incluia uma faixa com datacode para o ZX Spectrum bem cravados na memória – e à segunda audição, menos que um 8.2 parece-me injusto.